quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Poética da Indecidibilidade III

ele disse:

"o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou qualquer coisa
para começar o dia
o banqueiro sentou-se, puxou de um charuto havano, pensou um bocado na família"

eu perguntei:

para começar o dia do pedreiro ou o dia do banqueiro?

ele nada disse, mas não como se não quisesse dizer nada, como se dissesse:
dos dois, em tempo simultâneo, em tempo ausente sem passado nem futuro.

eu sem nada acrescentar, mas como se dissesse:
um passo para a frente
dois para trás

dança sem movimentos
ler sem olhar periférico
verbo sem tempo

ah! "nobilíssima visão", como se tivesse sido ele a dizer

1 comentário:

  1. para começar o dia como se o dia ainda não tivesse começado. o dia começa quando o pedreiro canta e o banqueiro pensa na família.
    o dia começa quando o pedreiro não faz de pedreiro e é outra coisa, um cantor que escala aos telhados; e o banqueiro não conta dinheiro, fuma um charuto, é aí que começa. Para começar o dia é preciso deixar de ser pedreiro e banqueiro, "em tempo ausente sem passado nem futuro", é preciso o tempo de ser, ser sem horas para ser pedreiro ou banqueiro.
    os dois em tempo e ser simultâneo.

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