ele disse:
"o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou qualquer coisa
para começar o dia
o banqueiro sentou-se, puxou de um charuto havano, pensou um bocado na família"
eu perguntei:
para começar o dia do pedreiro ou o dia do banqueiro?
ele nada disse, mas não como se não quisesse dizer nada, como se dissesse:
dos dois, em tempo simultâneo, em tempo ausente sem passado nem futuro.
eu sem nada acrescentar, mas como se dissesse:
um passo para a frente
dois para trás
dança sem movimentos
ler sem olhar periférico
verbo sem tempo
ah! "nobilíssima visão", como se tivesse sido ele a dizer
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
A indecidibilidade poética II
"escreverei os meus pensamentos com ordem, por um desígnio sem confusão. se forem justos, o primeiro será a consequência dos outros. é a verdadeira ordem." (Lautréamont, Poesias II, Cantos de Maldoror)
estas palavras outras ficam, na convicção profunda de que em qualquer livro outro que abrisse, na biblioteca que está aqui, encontraria uma frase, um verso ou qualquer outra coisa dizendo o todo essencial sobre todas as etiquetas criadas e por criar neste blogue.
somos nós que dizemos sempre o mesmo? ou o outro é sempre mais mesmo que outro? (encolher de ombros!) diz o teu dizer, como diz o outro.
o essencial, o exacto está-me sempre na citação.
estas palavras outras ficam, na convicção profunda de que em qualquer livro outro que abrisse, na biblioteca que está aqui, encontraria uma frase, um verso ou qualquer outra coisa dizendo o todo essencial sobre todas as etiquetas criadas e por criar neste blogue.
somos nós que dizemos sempre o mesmo? ou o outro é sempre mais mesmo que outro? (encolher de ombros!) diz o teu dizer, como diz o outro.
o essencial, o exacto está-me sempre na citação.
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exactidão,
indecidibilidade,
loucura
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
PÉRGOLA
Assim despida rente ao mar
só de longe em longe se
vêm enredar em cada uma
das suas colunas as flores
brancas da espuma
[in Porto de Abrigo, Assírio & Alvim, 2005]
só de longe em longe se
vêm enredar em cada uma
das suas colunas as flores
brancas da espuma
[in Porto de Abrigo, Assírio & Alvim, 2005]
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Imagens,
Jorge Sousa Braga,
Poesia
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
...
Transbordas toda em sangue e nome, por motivos
de lua – os delírios da fêmea
e da sibila.
Fechada ao tacto, e por dentro devorada
pelo clarão dos centros.
As épocas extremas de glicínias em luz
pendida, uma colina
ao meio inebriado de maio, um quarto brilhando
no interior da casa.
E morres e ressuscitas e transmudas-te
em matéria
radial de escrita. Enquanto corres profundamente e procuras
onde és visível. Unida, preciosa
- de porcelana, mogno, seda.
Ao serviço de uma urgência na escola da palavra.
Uma desarrumação nova nos elementos da púrpura.
Quando os meus dedos te fazem num mistério de baptismo.
Que abala a terra a toda a atmosfera
inaugural, que abre e encharca e ilumina
- como se fosse
respiração e sangue e potência
planetária: criaturas, objectos,
as ordens nominais que os arrancam dos limbos.
Quando se tornam translúcidos na fornalha.
Quando com tanta luz se tornam
ocultos.
Última Ciência, 1988 (in Poesia Toda, Herberto Helder, 1990, A&A)
A indecidibilidade poética
A arte de dizer, ou a arte de não dizer nada, é a poesia. Só ela pode dizer pelas palavras exactas que diz, mas nada mais nela é exacto.
Versos justapostos, dispersos por linhas paralelas delimitadas. Como longa expressão composta por justaposição entre hífens (exactamente como o nome de Valéry: Ambroise-Paul-Toussaint-Jules) que se reparte por uma forma.
Quando assim é, e é muito assim, os hifens desaparecem e as palavras correm livres pelos versos em linha quebrada. Como se re-une esta longa expressão que a poesia diz?
Cada verso segue um precedente, olhando para ele? Ou cada verso precede um seguinte, esperando olhar para ele? Ou cada verso é apenas um verso?
A indecidibilidade que não cessa.
Que avança linha debaixo/abaixo de linha numa elevada construção de matéria escrita/palavras e nós ali, numa vertiginosa queda pelo poema abaixo, vendo um novo que diz de um velho.
Que recua por precedência à frente de precedência até ao/a um último, que precede o fim, numa subida exangue pelo poema a cima.
E mais não pode ser, porque um verso nunca é apenas um verso, a não ser, claro, que seja apenas um verso e ninguém lhe chame poema. O justo espaço que separa um verso do outro fá-lo ecoar no outro (verso do mesmo poema, do mesmo livro, do mesmo autor, de um outro autor). Um verso nunca é apenas um verso.
E nós ali, indecisos entre as todas as variações do primeiro verso e o romper de um novo mundo a cada verso.
Mas que não é problema nenhum. A leitura do poema convoca-a, mas a escrita (de outros géneros ou de todos?) não a convoca, pelo contrário, ela é-lhe imprópria.
Escrever é escolher. E, claro, a primeira palavra é a mais difícil.
E se se chamar antes A Poética da Indecidibilidade?
de lua – os delírios da fêmea
e da sibila.
Fechada ao tacto, e por dentro devorada
pelo clarão dos centros.
As épocas extremas de glicínias em luz
pendida, uma colina
ao meio inebriado de maio, um quarto brilhando
no interior da casa.
E morres e ressuscitas e transmudas-te
em matéria
radial de escrita. Enquanto corres profundamente e procuras
onde és visível. Unida, preciosa
- de porcelana, mogno, seda.
Ao serviço de uma urgência na escola da palavra.
Uma desarrumação nova nos elementos da púrpura.
Quando os meus dedos te fazem num mistério de baptismo.
Que abala a terra a toda a atmosfera
inaugural, que abre e encharca e ilumina
- como se fosse
respiração e sangue e potência
planetária: criaturas, objectos,
as ordens nominais que os arrancam dos limbos.
Quando se tornam translúcidos na fornalha.
Quando com tanta luz se tornam
ocultos.
Última Ciência, 1988 (in Poesia Toda, Herberto Helder, 1990, A&A)
A indecidibilidade poética
A arte de dizer, ou a arte de não dizer nada, é a poesia. Só ela pode dizer pelas palavras exactas que diz, mas nada mais nela é exacto.
Versos justapostos, dispersos por linhas paralelas delimitadas. Como longa expressão composta por justaposição entre hífens (exactamente como o nome de Valéry: Ambroise-Paul-Toussaint-Jules) que se reparte por uma forma.
Quando assim é, e é muito assim, os hifens desaparecem e as palavras correm livres pelos versos em linha quebrada. Como se re-une esta longa expressão que a poesia diz?
Cada verso segue um precedente, olhando para ele? Ou cada verso precede um seguinte, esperando olhar para ele? Ou cada verso é apenas um verso?
A indecidibilidade que não cessa.
Que avança linha debaixo/abaixo de linha numa elevada construção de matéria escrita/palavras e nós ali, numa vertiginosa queda pelo poema abaixo, vendo um novo que diz de um velho.
Que recua por precedência à frente de precedência até ao/a um último, que precede o fim, numa subida exangue pelo poema a cima.
E mais não pode ser, porque um verso nunca é apenas um verso, a não ser, claro, que seja apenas um verso e ninguém lhe chame poema. O justo espaço que separa um verso do outro fá-lo ecoar no outro (verso do mesmo poema, do mesmo livro, do mesmo autor, de um outro autor). Um verso nunca é apenas um verso.
E nós ali, indecisos entre as todas as variações do primeiro verso e o romper de um novo mundo a cada verso.
Mas que não é problema nenhum. A leitura do poema convoca-a, mas a escrita (de outros géneros ou de todos?) não a convoca, pelo contrário, ela é-lhe imprópria.
Escrever é escolher. E, claro, a primeira palavra é a mais difícil.
E se se chamar antes A Poética da Indecidibilidade?
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
A moeda falsa / O silêncio das sereias
(quase) tópicos de previsão para amanhã
Se a moeda falsa é mais rica do que a verdadeira, não é, também, o silêncio das sereias mais rico do que o seu canto? mas qual silêncio? - o silêncio destruidor, a revelação, que condenaria Ulisses à arrogância de um deus? esse silêncio que derruba a vontade, e que, tal como ao deus bíblico, levaria Ulisses ao descanso eterno? ainda o mesmo, qual aleph, que depois de tudo ver e sem sarna com que se coçar, o homem estaria condenado à enfadonha eternidade de tudo saber? e não é esse silêncio, o próprio canto das sereias?, ou - o silêncio que é obscuridade, o silêncio do indizível, ao qual o homem não pode escapar por estar dentro da linguagem, o silêncio (que nos ajude Jean-Luc Nancy) que é a resistência, um ser silencioso que impede a totalização no absoluto? o silêncio que resiste ao seu gémeo destruidor?
E não é este (segundo) silêncio a poesia, o canto?
Pergunto, qual é a moeda falsa, qual é o silêncio verdadeiro? E o canto, quando é que é sua antítese?
Talvez estejamos no domínio do indecidível.
Atrevo-me a apostar, o primeiro é o silêncio que vem depois do canto, o tal que Ulisses não ouviu, arrisco mais, este é o silêncio do qual Ulisses foge toda a viagem; o segundo é o silêncio que desperta a viagem, o silêncio que é o rumor da língua.
Será que vejo um silêncio dos deuses e um silêncio dos homens? um da verdade o outro da língua?
As sereias deixaram de querer seduzir, calaram-se, agora só querem deixar-se captar pelo brilho dos olhos de Ulisses.E o brilho dos olhos do amigo d' A moeda falsa, é o brilho da ignorância ou do desaprender?
O texto também só quer ser visto. Eu também só o quis ver.
Aposto neste post só para o ver desmoronar...
ps: afinal em vez de tópicos são (quase) só perguntas...
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