quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A indecidibilidade poética II

"escreverei os meus pensamentos com ordem, por um desígnio sem confusão. se forem justos, o primeiro será a consequência dos outros. é a verdadeira ordem." (Lautréamont, Poesias II, Cantos de Maldoror)

estas palavras outras ficam, na convicção profunda de que em qualquer livro outro que abrisse, na biblioteca que está aqui, encontraria uma frase, um verso ou qualquer outra coisa dizendo o todo essencial sobre todas as etiquetas criadas e por criar neste blogue.
somos nós que dizemos sempre o mesmo? ou o outro é sempre mais mesmo que outro? (encolher de ombros!) diz o teu dizer, como diz o outro.

o essencial, o exacto está-me sempre na citação.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

PÉRGOLA

Assim despida rente ao mar
só de longe em longe se

vêm enredar em cada uma
das suas colunas as flores

brancas da espuma

[in Porto de Abrigo, Assírio & Alvim, 2005]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

...

Transbordas toda em sangue e nome, por motivos
de lua – os delírios da fêmea
e da sibila.
Fechada ao tacto, e por dentro devorada
pelo clarão dos centros.
As épocas extremas de glicínias em luz
pendida, uma colina
ao meio inebriado de maio, um quarto brilhando
no interior da casa.
E morres e ressuscitas e transmudas-te
em matéria
radial de escrita. Enquanto corres profundamente e procuras
onde és visível. Unida, preciosa
- de porcelana, mogno, seda.
Ao serviço de uma urgência na escola da palavra.
Uma desarrumação nova nos elementos da púrpura.
Quando os meus dedos te fazem num mistério de baptismo.
Que abala a terra a toda a atmosfera
inaugural, que abre e encharca e ilumina
- como se fosse
respiração e sangue e potência
planetária: criaturas, objectos,
as ordens nominais que os arrancam dos limbos.
Quando se tornam translúcidos na fornalha.
Quando com tanta luz se tornam
ocultos.

Última Ciência, 1988 (in Poesia Toda, Herberto Helder, 1990, A&A)



A indecidibilidade poética

A arte de dizer, ou a arte de não dizer nada, é a poesia. Só ela pode dizer pelas palavras exactas que diz, mas nada mais nela é exacto.
Versos justapostos, dispersos por linhas paralelas delimitadas. Como longa expressão composta por justaposição entre hífens (exactamente como o nome de Valéry: Ambroise-Paul-Toussaint-Jules) que se reparte por uma forma.
Quando assim é, e é muito assim, os hifens desaparecem e as palavras correm livres pelos versos em linha quebrada. Como se re-une esta longa expressão que a poesia diz?

Cada verso segue um precedente, olhando para ele? Ou cada verso precede um seguinte, esperando olhar para ele? Ou cada verso é apenas um verso?
A indecidibilidade que não cessa.
Que avança linha debaixo/abaixo de linha numa elevada construção de matéria escrita/palavras e nós ali, numa vertiginosa queda pelo poema abaixo, vendo um novo que diz de um velho.
Que recua por precedência à frente de precedência até ao/a um último, que precede o fim, numa subida exangue pelo poema a cima.
E mais não pode ser, porque um verso nunca é apenas um verso, a não ser, claro, que seja apenas um verso e ninguém lhe chame poema. O justo espaço que separa um verso do outro fá-lo ecoar no outro (verso do mesmo poema, do mesmo livro, do mesmo autor, de um outro autor). Um verso nunca é apenas um verso.
E nós ali, indecisos entre as todas as variações do primeiro verso e o romper de um novo mundo a cada verso.

Mas que não é problema nenhum. A leitura do poema convoca-a, mas a escrita (de outros géneros ou de todos?) não a convoca, pelo contrário, ela é-lhe imprópria.
Escrever é escolher. E, claro, a primeira palavra é a mais difícil.

E se se chamar antes A Poética da Indecidibilidade?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A moeda falsa / O silêncio das sereias


(quase) tópicos de previsão para amanhã

Se a moeda falsa é mais rica do que a verdadeira, não é, também, o silêncio das sereias mais rico do que o seu canto? mas qual silêncio? - o silêncio destruidor, a revelação, que condenaria Ulisses à arrogância de um deus? esse silêncio que derruba a vontade, e que, tal como ao deus bíblico, levaria Ulisses ao descanso eterno? ainda o mesmo, qual aleph, que depois de tudo ver e sem sarna com que se coçar, o homem estaria condenado à enfadonha eternidade de tudo saber? e não é esse silêncio, o próprio canto das sereias?, ou - o silêncio que é obscuridade, o silêncio do indizível, ao qual o homem não pode escapar por estar dentro da linguagem, o silêncio (que nos ajude Jean-Luc Nancy) que é a resistência, um ser silencioso que impede a totalização no absoluto? o silêncio que resiste ao seu gémeo destruidor?
E não é este (segundo) silêncio a poesia, o canto?
Pergunto, qual é a moeda falsa, qual é o silêncio verdadeiro? E o canto, quando é que é sua antítese?
Talvez estejamos no domínio do indecidível.

Atrevo-me a apostar, o primeiro é o silêncio que vem depois do canto, o tal que Ulisses não ouviu, arrisco mais, este é o silêncio do qual Ulisses foge toda a viagem; o segundo é o silêncio que desperta a viagem, o silêncio que é o rumor da língua.

Será que vejo um silêncio dos deuses e um silêncio dos homens? um da verdade o outro da língua?
As sereias deixaram de querer seduzir, calaram-se, agora só querem deixar-se captar pelo brilho dos olhos de Ulisses.
E o brilho dos olhos do amigo d' A moeda falsa, é o brilho da ignorância ou do desaprender?

O texto também só quer ser visto. Eu também só o quis ver.


Aposto neste post só para o ver desmoronar...

ps: afinal em vez de tópicos são (quase) só perguntas...


o canto


The belief in truth is precisely madness.
Nietzsche, Das Philosophenbuch


urge nas palavras uma auto-destabilização, estes monumentos erguem-se e quanto mais alto se elevam (quanto mais profundamente as vemos), mais claro é o desmoronamento. próximos de tocar essa luz da verdade, perto de lhe dar forma, qual golpe, assistimos à queda, emerge a sua antítese. restam os estilhaços, o rumor dos cacos, quebra-se o silêncio e a palavra fala. não sei a verdade que diz.
Na canseira diária e cega finjo que a recomponho, como quem finge ter lido as memórias póstumas de um deus.

quando o silêncio destruidor está no canto, tapo os ouvidos e canto no meu silêncio uma canção da infância.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Das Parábolas

Muitos se queixam que as palavras dos sábios frequentemente são apenas parábolas, mas sem utilidade para a nossa vida do dia a dia, que é, afinal, a única que temos. Quando o sábio diz: "Passa para o outro lado", não quer dizer que devemos ir para a outra margem, coisa que sempre poderíamos fazer, se o resultado do caminho valesse a pena. Refere-se sim a um lendário outro lado, a qualquer coisa que não conhecemos, que nem ele próprio consegue definir de forma mais exacta, e que por isso não nos serve de nada neste mundo. Todas estas parábolas querem dizer, no fundo, que o inexplicável é inexplicável, e isso já nós sabíamos. Mas aquilo que nos dá que fazer todos os dias são outras coisas.
Ao que alguém disse: "Porquê toda essa resistência? Se vos deixásseis guiar pelas parábolas, transformar-vos-íeis vós próprios em parábolas e ficaríeis livres das canseiras diárias."
E um outro respondeu: "Aposto que também isso é uma parábola."
O primeiro: "Ganhaste."
O segundo: "Sim, mas infelizmente só na parábola."
O primeiro: "Não, na realidade. Na parábola perdeste."

(PARÁBOLAS E FRAGMENTOS, Franz Kafka, A&A)


Porque é que será que tantos escritores, e sem lá terem estado, fazem melhores relatórios das aulas da Silvina do que eu?