sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Das Parábolas

Muitos se queixam que as palavras dos sábios frequentemente são apenas parábolas, mas sem utilidade para a nossa vida do dia a dia, que é, afinal, a única que temos. Quando o sábio diz: "Passa para o outro lado", não quer dizer que devemos ir para a outra margem, coisa que sempre poderíamos fazer, se o resultado do caminho valesse a pena. Refere-se sim a um lendário outro lado, a qualquer coisa que não conhecemos, que nem ele próprio consegue definir de forma mais exacta, e que por isso não nos serve de nada neste mundo. Todas estas parábolas querem dizer, no fundo, que o inexplicável é inexplicável, e isso já nós sabíamos. Mas aquilo que nos dá que fazer todos os dias são outras coisas.
Ao que alguém disse: "Porquê toda essa resistência? Se vos deixásseis guiar pelas parábolas, transformar-vos-íeis vós próprios em parábolas e ficaríeis livres das canseiras diárias."
E um outro respondeu: "Aposto que também isso é uma parábola."
O primeiro: "Ganhaste."
O segundo: "Sim, mas infelizmente só na parábola."
O primeiro: "Não, na realidade. Na parábola perdeste."

(PARÁBOLAS E FRAGMENTOS, Franz Kafka, A&A)


Porque é que será que tantos escritores, e sem lá terem estado, fazem melhores relatórios das aulas da Silvina do que eu?

2 comentários:

  1. Este excerto pensa exactamente aquilo que questionei no fim da última aula. Faz-me questionar aquela tendência da filosofia analítica para tentar encontrar, naquilo que é o poético de um texto, aquilo que separa a ficção da realidade.

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  2. diz o terceiro: eu não quero explicar o inexplicável, eu quero vivê-lo.

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