sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

...

Transbordas toda em sangue e nome, por motivos
de lua – os delírios da fêmea
e da sibila.
Fechada ao tacto, e por dentro devorada
pelo clarão dos centros.
As épocas extremas de glicínias em luz
pendida, uma colina
ao meio inebriado de maio, um quarto brilhando
no interior da casa.
E morres e ressuscitas e transmudas-te
em matéria
radial de escrita. Enquanto corres profundamente e procuras
onde és visível. Unida, preciosa
- de porcelana, mogno, seda.
Ao serviço de uma urgência na escola da palavra.
Uma desarrumação nova nos elementos da púrpura.
Quando os meus dedos te fazem num mistério de baptismo.
Que abala a terra a toda a atmosfera
inaugural, que abre e encharca e ilumina
- como se fosse
respiração e sangue e potência
planetária: criaturas, objectos,
as ordens nominais que os arrancam dos limbos.
Quando se tornam translúcidos na fornalha.
Quando com tanta luz se tornam
ocultos.

Última Ciência, 1988 (in Poesia Toda, Herberto Helder, 1990, A&A)



A indecidibilidade poética

A arte de dizer, ou a arte de não dizer nada, é a poesia. Só ela pode dizer pelas palavras exactas que diz, mas nada mais nela é exacto.
Versos justapostos, dispersos por linhas paralelas delimitadas. Como longa expressão composta por justaposição entre hífens (exactamente como o nome de Valéry: Ambroise-Paul-Toussaint-Jules) que se reparte por uma forma.
Quando assim é, e é muito assim, os hifens desaparecem e as palavras correm livres pelos versos em linha quebrada. Como se re-une esta longa expressão que a poesia diz?

Cada verso segue um precedente, olhando para ele? Ou cada verso precede um seguinte, esperando olhar para ele? Ou cada verso é apenas um verso?
A indecidibilidade que não cessa.
Que avança linha debaixo/abaixo de linha numa elevada construção de matéria escrita/palavras e nós ali, numa vertiginosa queda pelo poema abaixo, vendo um novo que diz de um velho.
Que recua por precedência à frente de precedência até ao/a um último, que precede o fim, numa subida exangue pelo poema a cima.
E mais não pode ser, porque um verso nunca é apenas um verso, a não ser, claro, que seja apenas um verso e ninguém lhe chame poema. O justo espaço que separa um verso do outro fá-lo ecoar no outro (verso do mesmo poema, do mesmo livro, do mesmo autor, de um outro autor). Um verso nunca é apenas um verso.
E nós ali, indecisos entre as todas as variações do primeiro verso e o romper de um novo mundo a cada verso.

Mas que não é problema nenhum. A leitura do poema convoca-a, mas a escrita (de outros géneros ou de todos?) não a convoca, pelo contrário, ela é-lhe imprópria.
Escrever é escolher. E, claro, a primeira palavra é a mais difícil.

E se se chamar antes A Poética da Indecidibilidade?

3 comentários:

  1. Gosto desta fábula, do verso olhar o precedente ou esperar olhar o seguinte, ou (deixa-me entrar na tua fábula) esperar ser olhado.
    O poema é de ascensão e queda, aquela ideia de elevado e tocante, é subir aos infernos e descer aos céus, claro enigma.

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  2. e eu a pensar que tinha escrito um ensaio... claro enigma!

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  3. Rifaterre chama a isto "contínuo recomeço", uma indefinição ora superada ora retomada a cada nova significação revelada

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